De onde surgiu aquele cachorro? Não lhe dei bola nem nada. Caminhava pela calçada, olhei para baixo e lá estava ele, abanando o rabo, me olhando com a afeição submissa de todo vira-lata.
Um vira-lata clássico, de fato. De tamanho médio, algo entre o pastor alemão e o pequinês. De cor indefinida, algo entre o preto e o marrom. Magricela, mas enérgico. Li numa edição da National Geographic que nenhum animal irracional do planeta se equipara em inteligência ao vira-lata brasileiro, capaz de aprender com mais rapidez do que qualquer chimpanzé que se balança numa palmeira indiana e a sobreviver na selva da cidade com mais sucesso do que uma criança de 12 anos de idade. Quando conheci aquele cachorro, constatei que isso é verdade.
Como dizia, caminhava pelas ruas do bairro, e ele apareceu. Começou a caminhar ao meu lado. Olhei para ele. Ele levantou a cabeça e olhou para mim.
- Que foi? – perguntei, como se pudesse receber resposta. – Não tenho comida. Vai embora.
E segui caminho sem lhe dar importância. Tinha mais em que pensar. As coisas não iam bem na minha vida. Fazia quase um ano que perdera o emprego e quase dois meses que perdera a família. Suspeito que uma coisa tenha sido decorrência da outra. Fui demitido do banco no ano passado e, desde então, o máximo que consegui foi um bico de entregador do mercadinho do bairro. Como sempre morei aqui e conheço todo mundo, o trabalho é fácil. Os vizinhos pedem algo por telefone e eu entrego na casa deles. Vou com a minha bicicleta, rápido e barato. Não precisam nem dizer o endereço, não há quem eu não conheça nas imediações. O dono do mercadinho é meu amigo, foi ele quem propôs o trabalho. Sei que no início a ideia dele era me ajudar, mas agora acho até que estou sendo útil. Os fregueses se acostumaram com o serviço. É prático e, como uso a bicicleta, cobro menos do que uma tele-entrega de moto. São um ou dois reais por entrega, dependendo da distância. Já ganhei 80 reais em um dia, mas a média é 20. Dá para viver, não pago aluguel, moro na casa que sempre foi dos meus pais, mas para sustentar mulher e duas filhas é pouco, quase nada. Acho que foi isso que fez minha mulher perder a paciência comigo. Um dia, um caminhão de mudanças encostou lá em casa. Três homens saltaram de dentro e foram pegando tudo, móveis, roupas, a TV, a geladeira. Fiquei olhando sem saber o que dizer. Perguntei para a minha mulher o que significava aquilo e ela mal me encarou ao responder:
- Vou embora.
Não consegui reagir. Não consegui argumentar. Nem sequer perguntei por que ela estava indo. De certa forma, já sabia. Não tinha acontecido nada de grave, nenhuma briga importante, nenhuma discussão explosiva, mas eu já sabia. Fazia tempo que sentia que ela não gostava mais de mim. Suspeito que minhas filhas também não gostem de mim. Não que me desprezem ou que me odeiem. É um nada, um vazio, um não sentir.
Quando elas moravam aqui era como se fosse um estranho para elas. Um transeunte. E elas também eram transeuntes para mim. Chegava em casa à noite e elas estavam trancadas no quarto, ouvindo música, ou ao telefone, ou ao computador, ou sabe-se lá o que fazem duas meninas pré-adolescentes num quarto. Minha mulher estava vendo TV. Sempre. Eu ficava um tempo por ali, zanzando, sem ter o que fazer. Então jantava sozinho na mesa da cozinha, via um pouco de TV ao lado dela e ia dormir. Uma vida chata, admito. Normal que elas quisessem ir embora. Dei razão a elas. Eu também iria embora, se fosse uma mulher e um homem me proporcionasse esse tipo de vida.
Elas se foram rapidamente, minha mulher deu tchau, minhas filhas não. Entraram todas no carro que eu havia comprado quando ainda estava empregado e sumiram rua abaixo, o caminhão de mudanças atrás.
Fiquei em casa olhando para as peças semi-vzias, sem saber o que pensar. Até hoje não comprei outra geladeira. TV tenho a pequena, que era do quarto. Coloquei na sala, em cima de uma cadeira. Minha vida como que se congelou. Nada mais aconteceu, até aparecer aquele cachorro.
Naquele dia, o cachorro me seguiu o tempo todo. Eu pedalava pelo bairro e ele atrás, a língua de fora. Quando parava para entregar as encomendas ou pegar uma nova no mercadinho, tentava expulsá-lo:
- Vai embora! Vai embora!
Ele não ia.
- Cachorro chato!
E seguia pedalando, e ele atrás.
No fim do dia, fui para casa, e o cachorro continuou no meu encalço.
- Mas que grude! – gritei, ao chegar à porta de casa. – O que você quer? Não vou dar comida! Só tenho comida para mim!
Entrei em casa, fechei a porta e o deixei do lado de fora. Jantei, sentei à frente da TV, bebi uma cerveja. Antes de me recolher, fui à janela, olhei para a rua. Ele estava lá. Deitado sob a luz do poste. Quando afastei a cortina, ele se ergueu de um salto, ficou me olhando com expectativa, a língua de fora, decerto esperando que o pusesse para dentro.
- Cachorro maluco – falei. E fui dormir.
Na manhã seguinte, qual foi o primeiro ser respirante que vi ao abrir a porta de casa?
Ele.
O cachorro.
Estava me esperando, o desgraçado. Nem olhei para ele, não falei nada. Montei na bicicleta e pedalei a toda velocidade. Ele teve dificuldade para me alcançar, mas conseguiu. Quando cheguei ao mercadinho, ele estava esbaforido, respirando pesadamente, mas estava lá. Continuou comigo o dia inteiro. O que ele queria? Não lhe dava comida, não lhe dava atenção, por que não me largava? Aquilo começou a me incomodar.
- Vai embora! – ralhava de vez em quando. – Não quero nenhum cachorro!
Ele não arredava a pata dalí.
Assim foram se passando os dias. Todos os dias ele comigo e, durante as noites, ele vigiando em frente à casa, debaixo do poste, esperando que eu aparecesse á janela para se levantar sobre as quatro patas, abanar o rabinho e ficar me olhando com adoração. Nunca lhe dei um osso sequer, nunca lhe fiz um afago. Não conseguia entender os motivos da adoração daquele cachorro por mim.
Depois de mais ou menos um mês, as pessoas do bairro já achavam que o cachorro era meu.
- Teu cachorro dormiu na chuva ontem – me disse um dia uma vizinha.
- Não é meu cachorro. Não tenho cachorro – respondi, mal-humorado.
E, realmente, ele não se afastava nem quando chovia, nem quando fazia frio. Como é que se alimentava? Um mistério.
No começo achava-o um cachorro muito feio, mas, aos poucos, fui notando que possuía belos olhos, cheios de luz, que emitiam um olhar molhado, de bons sentimentos, de algo parecido com devoção. Ou será que eu estava delirando? Pode ser. A gente pensa bobagens, quando não tem o que pensar.
Também notei que se tratava de um cachorro alegre. Parecia sempre de bom humor, apesar da falta de consideração que eu tinha por ele. Ou será que aquela alegria canina era outro produto da minha imaginação? Pode ser, pode ser…
Uma manhã, ia saindo de casa quando o telefone tocou. Estranhei. O telefone tocava pouco, desde que minha mulher fora embora. Atendi. Era o advogado dela. Da minha mulher.
- Advogado? Não sabia que ela tinha advogado… – comentei.
O cara nem respondeu. Informou que ela estava cobrando pensão. Um terço do que calculava que eu ganhava num mês. Tentei argumentar, dizer que não tinha emprego fixo, que vivia de bico, na informalidade. Ele desligou insinuando algo sobre cadeia imediata, a única coisa que dava cadeia no Brasil. Coloquei o fone no gancho, irritado. Saí resmungando:
- Pensão… Pensão! Era o que me faltava!
Como é que ia arrumar aquele dinheiro? Como é que ia viver? Será que minha mulher não sabia o que eu passava? Quem estaria envenenando-a contra mim? Pô, ela já tinha levado tudo, tinha levado até o meu carro!
Abri a porta e ele estava lá. O cachorro. Fazendo festa. Para mim, não era dia de festa, era dia de funeral. Ele veio todo alegre, veio se esfregar em mim, talvez intuindo que meu ânimo não era dos melhores. Aquilo me enfureceu. Todos os problemas que tinha e ainda precisava aturar um cachorro que eu não queria? Ele se esgueirou pelas minhas pernas e não me contive. Custa-me reconhecer, mas o fiz: chutei-o. Desferi-lhe um pontapé no meio do seu peito marrom. Ele rolou ganindo e caiu no meio-fio, me olhando com pavor.
- Sai, cachorro desgraçado! – gritei, batendo o pé na calçada, ameaçando lhe chutar de novo.
Ele saiu correndo, olhando para trás com o olhar triste, chorando. Sumiu na curva da esquina e desapareceu.
Não demorou muito para me arrepender. Foi quase imediato. Senti um aperto no meio do peito, uma angústia invencível. Fiquei um pouco desnorteado, girei para lá, para cá, não sabia o que fazer. Então, montei na bicicleta e pedalei até a esquina. Nada. Nem rastro do cachorro. Suspirei. Resolvi ir ao mercadinho. Talvez ele estivesse lá, me esperando.
Não estava.
Durante todo o dia, pedalei pelo bairro olhando para baixo, para ver se o encontrava.
Nada.
À noite, ia à janela de cinco em cinco minutos, esperando vê-lo debaixo do poste.
Nada.
No dia seguinte, resolvi empreender uma busca. Não fui trabalhar. Passei o dia inteiro procurando-o.
Não encontrei.
Até hoje, não encontrei. E mais do que os meus pais, que já morreram, mais do que minha mulher e minhas filhas, que me abandonaram, mais do que qualquer amigo que um dia tive, sinto falta daquele cachorro. Aquele maldito cachorro que, por alguma razão, gostava de mim. Aquele cachorro para quem, percebo agora, nem nome dei.
David Coimbra